CUBE Inteligência Política · Edição Especial
ALEP · 12 de maio de 2026 · Newsroom CUBE

O Conselho virou comitê de campanha

Cassação aprovada 6×1 ontem. Em outubro, Pacheco e Freitas brigariam pela mesma vaga federal. Agora, talvez não.

"Em outubro, Pacheco e Freitas brigam por uma vaga federal. Em maio, Pacheco escreve o parecer que tira Freitas do páreo. Mesmo cara, dois palcos."
Leitura CUBE, sobre o que o Conselho de Ética da ALEP aprovou ontem
Edição
12/05/2026
Placar 11/05
6 × 1
Próxima etapa
CCJ — hoje
Leitura
~12 min
Distribuição
Newsroom

Cinco camadas e uma sacada

A peça caminha do fato visível (briga de rua) até a engenharia eleitoral por trás dele. Cada nó é uma camada de profundidade; o centro é a sacada que liga tudo.

O que aconteceu, e o que ainda está em jogo

Ontem, 11 de maio de 2026, o Conselho de Ética da Assembleia Legislativa do Paraná aprovou por 6 votos a 1 o parecer do relator Márcio Pacheco (Republicanos) pela cassação do mandato do deputado estadual Renato Freitas (PT). O único voto contrário foi de Dr. Antenor (PT), suplente substituindo o próprio Freitas no colegiado. Na mesma sessão, o Conselho aprovou ainda dois outros processos contra Freitas: duas suspensões de 30 dias de prerrogativas — pelo protesto no Supermercado Mufatto e pelo tumulto na CCJ de fevereiro/2025.

O motivo formal da cassação: a briga de Freitas com o manobrista Weslley de Souza Silva, 23 anos, em 19/11/2025, na esquina das ruas Vicente Machado e Visconde do Rio Branco, no centro de Curitiba. Vídeos divulgados pela defesa do manobrista mostram Freitas atravessando a rua para iniciar o confronto físico. A defesa do deputado alega legítima defesa contra injúria racial e uma quase-atropelamento da companheira grávida. Onze representações foram protocoladas contra Freitas só por este episódio.

Freitas reagiu em plenário e, à imprensa, declarou que "não se surpreende" com a aprovação e espera reverter a decisão "apenas no STF". Seu gabinete classificou o resultado como "assassinato político, resultado de racismo institucional". A defesa tem 5 dias úteis para apresentar recurso à CCJ. A sessão da CCJ acontece hoje (12/05).

A leitura convencional é simples: deputado violento, reincidente, perde o mandato. A leitura CUBE é outra. Por trás do parecer técnico há uma engenharia eleitoral pública e mapeável. O relator do processo, Márcio Pacheco, é pré-candidato a deputado federal pelo PR em 2026. O investigado, Renato Freitas, também. Os dois disputam a mesma vaga federal em outubro. Em maio, um escreve o parecer que pode tirar o outro do páreo três meses antes do registro de candidatura. O placar de ontem — 6×1 — confirma que o cenário-base previsto pelos números do tabuleiro se materializou.

Os números que decidem o jogo

Cinco indicadores definem o tabuleiro de hoje. Os três primeiros explicam a votação no Conselho e no plenário. Os dois últimos explicam por que isso importa para outubro.

7
Membros do Conselho
Cassação requer 4 votos
28/54
Maioria no Plenário
Bloco governista soma 40+
20/28
Processos contra Freitas
71% da legislatura atual
8 anos
Inelegibilidade Ficha Limpa
Se cassado por decoro
15/08
Prazo de registro TSE
Após essa data, cassação não impede registro
Camada 1 — Conselho ✓
6×1
votos pela cassação · placar confirmado em 11/05
Único contra: Dr. Antenor (PT)
Camada 2 — Plenário
28
votos de 54 para cassar o mandato
Bloco governista soma 40+
Camada 3 — Calendário
95
dias entre hoje e o prazo de registro
Tempo é a única vitória possível

O relator é o concorrente

Márcio Pacheco e Renato Freitas não disputam o mesmo nicho — o coronel-conservador e o petista-periferia atendem polos opostos. Mas o coeficiente eleitoral do PR é de ~200 mil votos, e cada cadeira federal é uma cadeira disputada por todos. Reduzir o número de competidores é vitória para qualquer um que continua na corrida.

Pacheco · Republicanos O policial federal de Cascavel Em terceiro mandato estadual, eleito em 2022 com 24.855 votos. Migrou do PP para o Republicanos em 2026, junto com Curi. Anunciou publicamente sua pré-candidatura a deputado federal pelo PR em 2026, com foco no oeste do estado, e foi apresentado pela direção do partido como um dos principais nomes da chapa. Vice-presidente do Conselho de Ética. Relator do parecer pela cassação.
Freitas · PT O petista de Curitiba Eleito estadual em 2022 com 57.880 votos. Pré-candidato a deputado federal pelo PT em 2026: "Me considero já um pré-candidato a deputado federal e a minha luta vai ser de vida e morte". Base: Curitiba, periferia, eleitorado identitário. Estimativa interna PT-PR: 200 mil+ votos. Tem 20 das 28 representações da legislatura concentradas em si.

O detalhe que vira a tese

Em 24/02/2025, Pacheco e Freitas se desentenderam fisicamente durante sessão da CCJ. Freitas chamou Pacheco de "coronelzinho de meia-pataca". Segundo registros públicos da imprensa paranaense (Revista Fórum, ISTOÉ, Plural), Pacheco mantém posts pessoais nas redes atacando Freitas. A defesa pediu suspeição do relator — o Conselho negou. Quando o juiz já se desentendeu com o réu, a parcialidade não precisa ser provada: ela é arquitetura processual.

A máquina Curi e o 1º Código de Ética

O instrumento que viabiliza a cassação é novo. Foi promulgado em 22/09/2025 sob a presidência de Alexandre Curi. Três movimentos compõem a engrenagem.

01 22/09/2025
Primeiro Código de Ética da história da ALEP
Sob a presidência de Alexandre Curi (à época PSD, hoje Republicanos), a ALEP promulgou seu primeiro Código de Ética em 70 anos. Aprovado em três meses, com 11 das 17 emendas acatadas — amplo acordo, não imposição. Mas o calendário é eloquente: entrou em vigor menos de 60 dias antes da briga de rua que originou a cassação.
02 Cláusula automática
Discursos vão direto ao Conselho
O Código prevê que "todos os discursos desrespeitosos, agressivos, contra quem for, serão automaticamente encaminhados ao Conselho de Ética", com suspensão de 30 a 120 dias para reincidência. Para o caso atual, o Conselho passou de 5 para 7 membros — ampliando margem da maioria governista.
03 Chapa eleitoral
Curi vai ao Senado pela chapa Ratinho
Curi é, hoje, pré-candidato ao Senado pelo Republicanos, em chapa única com Sandro Alex (PSD) para o governo do Paraná. Mesmo partido que Pacheco. Curi (Senado) e Pacheco (federal) com o mesmo padrinho político — e um caso de cassação tocado por ambos: Curi escreveu o Código; Pacheco escreve o parecer.

A narrativa de perseguição tem três contraprovas

A defesa de Freitas tem lastro estatístico: 20 das 28 representações abertas no Conselho de Ética na legislatura atual miram Freitas — 71%. Uso seletivo do instrumento. Mas três fatos contaminam a tese de perseguição racial ou ideológica.

A
Evidência física
Vídeo
A imagem da briga
O vídeo da defesa do manobrista mostra Freitas e seu assessor atravessando a rua para iniciar o confronto. A versão "legítima defesa contra atropelamento" é difícil de sustentar contra imagem.
B
Evidência institucional
TJ-PR
A incoerência do Estado
O TJ-PR declinou competência sobre o caso criminal, entendendo que Freitas não estava no exercício do mandato durante a briga. O parecer Pacheco afirma o contrário — que houve "violência física no exercício do mandato". Incoerência interna que é a melhor brecha para o STF.
C
Evidência simétrica
Arruda
Bruxa vs briga, mesma sessão
Na mesma sessão de 06/05/2026, o Conselho puniu Ricardo Arruda (PL) — que chamou Cármen Lúcia (STF) de "bruxa" — com censura escrita. Pena mínima. No mesmo dia, propôs cassação para Freitas por briga privada. Mesmo Código, mesmo Conselho, mesma data — penas radicalmente diferentes.

O silêncio que confirma

Em 2022, quando Freitas foi cassado vereador em Curitiba, o PT nacional mobilizou Gleisi, Boulos, Wadih Damous e a militância antirracista. Em 2026, o silêncio é audível. Edinho Silva deu nota institucional. Gleisi não se manifestou. Carol Dartora, primeira deputada federal negra do PR, não puxou defesa fechada. Lula não falou. Freitas não é orgânico no PT — em março de 2026 avaliou ir para o PSOL. Sua candidatura divide o voto da esquerda em Curitiba e tira oxigênio identitário de Ana Júlia Ribeiro e Luciana Rafagnin. Cassá-lo resolve um problema interno do PT-PR sem o partido pagar o custo.

As datas que decidem

O calendário, não o placar, é o jogo real. Cassação antes de 15/08 → inelegibilidade. Cassação depois → registro já feito, candidatura ainda viável.

11/05 · Ontem
Conselho aprovou 6×1Único contra: Dr. Antenor (PT). Cassação + 2 suspensões.
2
12/05 · Hoje
CCJ ALEPDefesa tem 5 dias úteis para recurso. Sessão da CCJ hoje.
3
Jun-Jul
Plenário ALEPMaioria absoluta (28/54) — bloco governista soma 40+.
4
15/08
Prazo TSELimite de registro de candidatura — divisor de águas.
5
20/07-05/08
ConvençõesPT-PR decide chapa federal — Freitas dentro ou fora.
6
04/10
1º turnoEleições gerais. Disputa pela vaga federal.

Os três caminhos possíveis

65%
Mais provável
Cassação antes de 15/08
Conselho já aprovou (✓). CCJ confirma esta semana ou na próxima; plenário cassa em junho ou julho. Freitas fica inelegível por 8 anos. PT-PR digere o luto e direciona militância para Ana Júlia e Luciana. Pacheco e Curi seguem campanha sem ruído.
Sinal de viradaSTF não intervém ou intervém só após eleição. Suplente assume a cadeira até o fim do mandato.
25%
Plausível
Adiamento + punição forte
Defesa apresenta recurso à CCJ nos 5 dias úteis; vícios procedimentais reconhecidos; plenário recua para confirmar só as suspensões (60+ dias somadas). Freitas mantém registro e chega à diplomação. Sai como "mártir blindado pela liturgia".
Sinal de viradaPelo menos 2 deputados do bloco governista titubeiam. Cassação fica para depois do registro.
10%
Cauda
STF reverte
Freitas já disse que aposta no STF. Liminar suspende processo com base em suspeição do relator ou incoerência do TJ-PR. Cenário 2022 se repete em escala maior. Composição atual do STF (sem Barroso) é menos favorável; aposta em Fachin, Zanin ou Toffoli.
Sinal de viradaDefesa de Freitas leva diretamente ao STF via mandado de segurança preventivo.
Linha de base CUBE: com o 6×1 de ontem, o cenário-base ficou mais provável. Os três caminhos terminam com Pacheco e Curi em melhor posição eleitoral. O instrumento de decoro está calibrado para resultado, não para reincidência.

O que sobra quando o decoro é pretexto

O caso Renato Freitas passou ontem pela primeira etapa de quatro: Conselho de Ética → CCJ → plenário → STF. O placar previsto pela aritmética se confirmou: 6×1, único contra Dr. Antenor (PT). Como história de violência reincidente, o caso fecha. Mas a engenharia institucional ao redor dele revela um padrão que vai além do investigado.

Quando o relator é o concorrente direto na urna seguinte, quando o presidente da Casa é candidato pela mesma chapa partidária do relator, quando o Código de Ética que viabilizou o processo foi escrito 60 dias antes do fato e por quem se beneficia da cassação, o instrumento técnico vira plataforma eleitoral. Decoro parlamentar é uma cláusula séria; usar decoro para eliminar competidor é abuso de função.

O eleitor mediano paranaense, que vê pelas manchetes "deputado violento perde mandato", recebe a versão sem o avesso. O avesso é que o decoro está sendo aplicado com pena máxima a um candidato e pena mínima a outro deputado da base — na mesma sessão. Em outubro, três meses depois do plenário cassar, Pacheco e Freitas teriam disputado a mesma vaga. Hoje, ele já avisou: aposta no STF.

Quando o relator do processo é o concorrente do investigado na urna seguinte, o Conselho de Ética virou comitê de campanha. Decoro virou disputa de cadeira.

Verdade convencional vs verdade estrutural

Leitura convencional Leitura estratégica · CUBE
Briga de rua / quebra de decoro Concorrência eleitoral direta entre relator e investigado pela mesma vaga federal em outubro/2026.
Reincidência em violência Cassação como eliminação eleitoral três meses antes do prazo de registro de candidatura.
Decoro institucional restaurado Beneficiários reais: Pacheco (federal) + Curi (Senado), mesma chapa Republicanos, com aval Ratinho.
Perseguição racial do PT Suspeição do relator + incoerência TJ-PR — o STF é a única saída processual real.
Centrão paranaense ganha Quem ganha mesmo: concorrentes diretos da urna federal 2026. Quem perde: o decoro como categoria.

As bases que sustentam a análise

Todas as informações foram cruzadas em pelo menos duas fontes independentes. Imprensa paranaense regional, portais institucionais (ALEP, STF, TSE) e veículos nacionais.

Portal ALEP STF — Notícias TSE Gazeta do Povo Plural Curitiba Ric.com.br CartaCapital Revista Fórum Bem Paraná Folha de Londrina Portal ALEP STF — Notícias TSE Gazeta do Povo Plural Curitiba Ric.com.br CartaCapital Revista Fórum Bem Paraná Folha de Londrina

Documentos primários e referências

  • Portal ALEP — Composição do Conselho de Ética, decisões disciplinares 06/05, perfil dos deputados
  • STF (Notícias) — Decisão Barroso 23/09/2022 que restabeleceu Freitas vereador
  • TSE — Calendário Eleitoral 2026, caso Queimadas/BA (Ficha Limpa "k")
  • Gazeta do Povo — Cobertura "Relator pede cassação por briga", Curi/Republicanos, Pacheco
  • Ric.com.br — Detalhes da pauta 11/05, composição do Conselho
  • Plural Curitiba — Vídeo da defesa, declínio TJ-PR, Freitas/PSOL
  • CartaCapital — Reforma do Código por Curi, censura prévia
  • Revista Fórum + ISTOÉ — Conflito anterior Pacheco-Freitas (24/02/2025)
  • Bem Paraná — Composição do Conselho com 7 titulares, censura Arruda
  • Folha de Londrina — 8 pedidos de cassação contra Freitas, licença médica